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A magia do Carnaval de Oruro na Bolívia, uma festa com profundas raízes
Ao contrario do carnaval do Brasil, o de Oruro não é uma competição, longe disso. É a festa de um povo, no amplo sentido da palavra.
Matérias09/12/2019 20h24Atualizada em 18/12/2019 12:12 Por: Jaime Bórquez - Colaborador





A festa é tão grande, que em um dia se apresentam 48 blocos, conjuntos ou fraternidades, com 18 tipos de dança, cada uma com sua peculiar música e vestimenta/Fotos: Jaime Bórquez

Se quer entender o Carnaval de Oruro não vai ser numa só visita que vai conseguir este propósito. Poderá investigar, conversar com entendidos na matéria, pesquisar seu passado e chegar até os tempos da colonização espanhola, mas já vamos avisando, enquanto mais pesquise, mais dúvidas e perguntas sem respostas aparecerão. Por tanto, o melhor que os visitantes devem fazer é gozar estes dias de festa, de uma riqueza folclórica admirável, de uma tradição que nenhum colonizador logrou sepultar, tentado até com extrema violência.

 
Mas, mesmo sem entender ele de profundo, podemos dizer algumas certezas. Ao contrario do carnaval de Rio ou de São Paulo, o de Oruro não é uma competição, longe disso. É a festa de um povo no amplo sentido da palavra. Numa cidade com 261 mil habitantes, o carnaval convoca 100 mil dançarinos e 7 mil músicos. Quando uma festa reúne mais de um terço da população do lugar, alguma razão poderosa há e aqui só cabem a fé e o desejo de manter a tradição cultural. Para ter uma pequena idéia do tamanho desta festa, um dado pode ser interessante de saber, em um dia se apresentam 48 blocos, conjuntos ou fraternidades, que fazem uma amostra de 18 tipos diferentes de dança, cada uma com sua peculiar música e vestimenta. São três dias de uma festa que foi declarada pela UNESCO como Obra Mestre do Patrimônio Oral e Intangível da Humanidade em 18 de maio de 2001.
 
A origem desta festa em Oruro é produto de três elementos ancestrais de  invocação andina, à Pachamama, ou Mãe Terra, ao Tio Supay, ou Satã dos mineiros, e à Mãezinha do Socavón, que é a Virgem da Candelária. Por tanto, este carnaval nada mais é que sincretismo pagão-religioso com grande valor devocional. De fato, o longo e esgotante percurso, de dia, noite ou madrugada, embaixo de chuva ou sol inclementes, só termina apos entrar na igreja da Candelária e, muitos de joelhos, agradecendo à sua querida Virgen del Socavón. São mais de 18 tipos diferentes de danças, cada uma com música, ritmos e vestimentas também diferentes. Uma festa que se tem mantido nas tradições por muitos anos, sem ter perdido sua raiz cultural.


A Bolívia é uma nação com dezenas de grupos étnicos e o Carnaval de Oruro é reflexo só de uma parte deles, a chamada Terra Alta dos Urus. Cada bloco encara mais de uma hora de dança e música constante por dezenas de quarteirões da cidade. Só num deles é cobrado o ingresso, algo assim como o oficial, onde se instalam as autoridades para ver e participar deste magno evento. E lá que esteve muitas vezes o Evo Morales, fazendo questão de dizer que o fazia como um boliviano comum e não como presidente do país. Contava que, quando era criança, escutava ao longe os ritmos deste carnaval, enquanto ele cuidava seus poucos animais, que pastavam nos arredores de Oruro. O desejo de ver e participar na festa era um sonho para ele.

E é um sonho e desejo de todos os bolivianos que participam desta festa, que não tem perdido seu caráter popular e a força de dar, a todos os que chegam a Oruro nestes dias, uma energia que  os une com a Terra e os Céus.

por Jaime Bórquez
Jornalista com 35 anos de experiência em representações, assessoria e consultoria em turismo no mercado nacional e internacional, e nosso colaborador na plataforma afimdeviajar.com





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